quinta-feira, Setembro 30

Ninguém como Kafka conseguiu animar com sensibilidade própria as coisas inanimadas; ninguém, com tanto brilho, soube retomar o ensinamento dos Vers Dóres de Gérard Nerval. Tendo sido empregado na Administração das Águas, na Áustria, há a convicção de que foi ele o responsável pela construção da rede de condutas aquáticas.

André Breton, Antologia do Humor Negro.

Nicht versöhnt

quarta-feira, Setembro 29

Passar o tempo

O dia chegou ao fim e continuo vazio, vazio, como um poema de amor. Nenhuma ideia. Nenhuma história. Nem sequer uma pequena frase. As horas arrastam-se. Para passar o tempo, mato personagens.
Ali vem o bom do Christopher Lindholm, de mãos nos bolsos, a limpar os dentes com a língua e a arrastar pelo pó as botas de cano descido. Pumba! Uma pancada rápida e definitiva na nuca. Nem estrebucha.
Lá está Stefan Gergiev, afundado numa cadeira, à mesa do café Metropolitano, escrevendo, escrevendo, e de vez em quando tossindo um versinho genial. Aponto o revólver e aperto o gatilho. Pum! Uma bala certeira entre os olhos. Acabou-se a poesia para Stefan.
Avançando, avançando. Apresento-vos Rafael Zagnosek. Cara parecida com casca de caranguejo, olhos pequenos e maus, bigodinho gogoliano, dedos manchados pelo tabaco e - crac! – o nobre pescoço partido.
Oh, este é Julien Perrin. Um velhote magricela e coxo, pálido e abatido, que mal consegue mover-se. Basta um pequeno murro no alto da cabeça e pronto. Mas o velhote resiste. Espeta um dedo acusador na minha direcção e fita-me boquiaberto, como um campónio perante as habilidades de um prestidigitador. Que nervos que me dão estas pieguices. Pumba! Outro murro. O velho Julien tomba fulminado.
Eis Ignacio Vara, que também dá pela doce alcunha de Compincha. Expressão de pássaro bonacheirão. É um dos tipos mais felizes à face da terra. Por tudo e por nada, o seu rosto ilumina-se dos mais radiosos sorrisos, gargalhadas pairam-lhe nos lábios e uma alegria benévola cresce-lhe nos olhos. Pois bem, basta um golpe de navalha no coração e acontece o que todos sabem: adeus Ignacio.
Olhem, olhem, vejam lá se não é o grande Valerio Luparelli. Homem extraordinário, maravilhoso, bem-educado. Detentor de uma erudição absolutamente invulgar. Erudição que o levou ao pináculo da fama e também – ai! – a um trágico final. Um simples empurrão e dá-se a mais bela e aparatosa queda que jamais presenciei em toda a minha existência. Catrapum! Cai de cabeça com um estrondo que parece um trovão. Catrapum! Acabou-se.
Oh, que noite tranquila e feliz!

The last summer song

But for now, the corn in tassel, the height of summer passing, time opening out with room again for tiffs and trivialities. No more hard edges on the days, no sense of fate buzzing around in your veins like a swarm of tiny and relentless insects.
Back to where no great change seems to be promised beyond the change of seasons. Some raggedness, carelessness, even a casual possibility of boredom again in the reaches of earth and sky.

Alice Munro, The View from Castle Rock

terça-feira, Setembro 28

Eu fiquei do lado dos dióspiros.

segunda-feira, Setembro 27

A laranja

O Boris, sentado num tronco, comia uma laranja.
Gomo após gomo.
O Nicolas veio sentar-se ao pé dele.
- É boa?
- Muito boa!, responde o Boris.
- Ah!, suspira o Nicolas. Se eu tivesse uma laranja havia de a partilhar contigo.
- Claro, diz o Boris, engolindo o último gomo da sua laranja. É pena não teres uma laranja!

Oleg Grigoriev.


Mais informações aqui.
Disponível para envio a partir de 11 de Outubro no Wook e também no site da Angelus Novus.

domingo, Setembro 26

A questão das drogas, associadas na época da ditadura à contestação e a uma atitude libertária, contracultural, hoje é inseparável da questão do tráfico como crime organizado. Como você analisa isso?
CHACAL: As drogas continuam por aí. O que mudou foi nossa crença em mudar o mundo. Antes a droga era combustível para tal. Hoje, com o mundo mudado, a droga se transformou em mais uma mercadoria, uma forma terminal de tapar o imenso vazio.

Chacal em entrevista a Luciano Trigo.


Coloquei no YouTube o extracto da entrevista com Michel Ciment em que Rohmer fala sobre Conto de Inverno (ouvir Eric Rohmer é tão bom como ouvir as suas personagens). 1. Se correr tudo bem, ficará disponível em breve. 2. Mas como o acto infringe os direitos de autor, mais cedo ou mais tarde será rejeitado. 3. Godard está do nosso lado.

une couleur grise

Mes préoccupations picturales ont toujours été très fortes, même si elles sont cachées. Est-ce qu’elles sont abouties, je n’en sais rien, ce n’est pas à moi de juger, m’enfin même dans ce film [Conte d'hiver] qui montre un "terne" et sans éclat, et bien il y a un parti pris pictural dans le choix des lieux, dans le choix des espaces, dans le choix des lignes, dans le choix des décors, dans le choix des costumes… et finalement dans le choix des couleurs, qui ont une certaine unité dans le terne, dans le noir et marron. Tous mes films ont une couleur et en général la couverture du scénario annonce la couleur. Là c’était une couleur grise.
Eric Rohmer, entretien avec Michel Ciment in Projection Privée, France Culture, 9 février 1992.

sábado, Setembro 25

J'aime votre silence





Félicie et Loïc assistent à une représentation du "Conte d'hiver" de Shakespeare.

Language! It's a virus!

"Escolher ou não escolher" é uma frase tão impossível como as escadas de Escher. Se pensarmos nas palavras como objectos visíveis, reparamos que a negação não é suficientemente opaca para encobrir o poderoso verbo, logo é também uma escolha, de sentido diverso mas mesmo assim uma escolha. Para escapar a este problema — excluindo a feitiçaria e a música, como no Conto de Shakespeare; ou a fé, como em Pascal — seria preciso outra formulação, uma palavra destruidora ou então, melhor ainda, um grunhido. Mas a verdade é que quando a filosofia começa a grunhir já é outra coisa.

sexta-feira, Setembro 24

Hoje entrei pela primeira vez na Boulangerie de Paris, comprei dois flans de ameixa para a sobremesa. Quando cheguei a casa tinha mais uns filmes de Rohmer na caixa do correio. Ao jantar pensei em Pascal mas, por pudor, não disse nada sobre o assunto. Ah, gosto tanto quando a vida segue a cadência doce das estações e dos provérbios.

quinta-feira, Setembro 23

O fantasma de Fabrice Borel

A eternidade é uma chatice. Mas cada morto tem o seu método particular de combater o tédio. O actor Fabrice Borel, por exemplo, continuou a fazer teatro depois de morrer. Era muito requisitado para desempenhar o personagem de pai de Hamlet, sendo um dos seus mais proeminentes intérpretes.
Quase todas as temporadas o fantasma de Borel regressava ao mundo dos vivos para assombrar os grandes palcos mundiais:
- Hamlet, eu sou o espírito de teu pai.
E dizia o texto na sua terrível voz de morto e de forma tão convincente que o público gelava nas cadeiras, arrancando aplausos entusiásticos e excelentes críticas nos jornais.
Tudo correu muito bem ao longo de anos e anos e anos e anos. Até ao dia em que, durante uma representação no Theater an der Winkelwiese*, lhe caiu uma parte do cenário em cima, tendo tido morte imediata. A sua segunda morte, bem entendido. Depois do acidente, que comoveu o meio artístico e o público da época, decidiu abandonar em definitivo o teatro. Actualmente, dedica-se ao negócio de cavalos.

* Winkelwiese 4, 8001 Zurique.

Doutor Avalanche, p. 11.

d'ailleurs, j'aime surtout les ours

quarta-feira, Setembro 22

A wikipédia aponta como principais características do conto: concisão, precisão, densidade, unidade de efeito ou impressão total. Diz também que o conto precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade. E por fim, exibindo uma lógica desarmante, ao escritor de contos dá-se o nome de contista. Se esquecermos o pormenor da excitação e emotividade, tudo isto é razoavelmente aceitável. A minha visão, porém, é de outro género, quer dizer, é literalmente uma visão: os contos são exercícios de esgrima — apercebemo-nos disso quando sentimos a ponta do florete a furar-nos a pele.
Esperei muito tempo pelos Melhores contos, de Eudora Welty (Relógio d'Água, Agosto de 2009). Trouxe-os hoje da Biblioteca, assim como O amor de uma boa mulher, de Alice Munro (Relógio d'Água, Fevereiro de 2008). Em ambos, nos textos da contracapa, fala-se de Tchékhov: a ternura irónica de Tchékhov, ou o realismo tchékhoviano.
Revolucionando o uso da palavra, Khlébnikov estudou as possibilidades novas de seu emprego. A "língua transmental" (zaúm) era para ele algo bem concreto e preciso; os sons aglutinados não eram fortuitos, embora estivessem desligados do conceito habitual. A linguagem dos feiticeiros, dos xamãs da Ásia Central; a montagem e desmontagem das palavras; a transformação de nomes próprios em verbos, de substantivos em adjectivos e vice-versa; o registo dos cantos dos pássaros; a formação de palavras nas línguas eslavas em geral - eis alguns dos recursos de que se serviu. Muito antes dos surrealistas, já prenunciava a chamada escrita automática. Superando as limitações de espaço e tempo, antecipou em certo sentido o dadaísmo. Seus caligramas são anteriores aos de Apollinaire, e suas montagens de palavras efetuam-se na mesma época que as de Joyce.

Boris Schnaiderman, "Poesia Russa Moderna", 1967.

terça-feira, Setembro 21

O dia em que o mundo se partiu em dois

A manhã estava cheia de engraxadores. E não apenas engraxadores: também toureiros e motoristas a transbordar optimismo. Mas aquele seria sempre um dia de verdades desagradáveis. E ao princípio da tarde, no meio de um estrondo aterrador, o mundo partiu-se em dois. Não existem palavras no mais volumoso dos dicionários capazes de descreverem o horror. Durou um minuto ou apenas um segundo? Não sou capaz de dizer.
Uma enorme e espessa nuvem de pó pairou durante longo tempo sobre as nossas cabeças. Andávamos quase sem ver, atónitos, confusos. Um tétrico silêncio de túmulo instalou-se por toda a parte. Depois, o sol forçou o caminho e, à cruel luz da aurora, vimos o que realmente acontecera. Muitos começaram a chorar amargamente e a maldizer o destino. Outros, presos dos mais cruéis pensamentos, retorciam lugubremente o bigode, com uma expressão triste e angustiada. O mesmo sombrio alvoroço por toda a parte.
O mundo partira-se em dois e, por um inesperado capricho da natureza, por qualquer lei secreta que nenhum tratado científico menciona, na metade esquerda ficaram apenas os homens e na direita as mulheres. Na metade esquerda os pássaros e na direita os gatos. Figueiras na metade esquerda, diospireiros na direita. Borboletas na direita e crocodilos na esquerda. E entre as duas metades, o negro espaço, infinito e vazio.
Um mês passou, depois um segundo, um terceiro. Um ano, dois anos passaram já. E, oh!, como me fazem falta os diospiros.

segunda-feira, Setembro 20

As estatísticas também têm o seu lado obscuro e verdadeiro

Só há alguns dias reparei que o blogger faz estatísticas. A maior parte dos nossos leitores são ocasionais, entram através do google.com.br à procura de uma palavra ou de uma imagem. O blogue é um lugar de passagem — gosto de imaginar um corredor comprido e estreito como um poço horizontal. Hoje, entre outras coisas, procuraram cordéis pequenos, campos de milho e as dioptrias de Elisa.

domingo, Setembro 19

Uma imagem da Índia

Sou arrancado a estas reflexões pelo ruído de um barco a motor que bate contra o cais. É um barco de excursões, desembarcam duas americanas, mãe e filha. A mãe é uma matrona olhuda e com gota; a filha, que terá vinte anos, tem cabelos ruivos , um rosto delicado, branquíssimo, desenxabido, com uns olhos cor de violeta e as faces cobertas de sardas. Está vestida de seda esvoaçante e colorida, tem os braços e os ombros nus, vermelhos do sol tropical. O jovem marinheiro quase negro, com um corpo perfeito completamente nu exceptuando uma tanga pequeníssima, ajuda as duas melheres a saírem da embarcação. Mas a filha põe um pé em falso, quase cai ao mar e por um instante fugaz o seu braço nu, branco, sardento, avermelhado, enleia-se, quase se diria que se enrosca, no braço também nu, quase negro, do marinheiro. Tenho a sensação de duas plantas ou dois animais enroscados um no outro, muito diferentes e todavia inseparáveis: a simbiose. Mas o aperto solta-se quase de imediato e a rapariga, rindo e comentando o facto em voz nasal, salta para o cais


Último parágrafo do capítulo Colonialismo e Simbiose d' Uma ideia da Índia, de Alberto Moravia, com tradução de Margarida Periquito. Colecção de Literatura de Viagem, coordenada por Carlos Vaz Marques e publicada pela Tinta da China, agora à venda nas tabacarias, junto com a revista Sábado, por €5,95.

§

Gosto bastante da imagem do braço branco da rapariga enleado no braço negro do marinheiro e dessa iminência de queda. Mas talvez seja necessário recuar umas páginas e deixar Moravia explicar o seu conceito de simbiose.
Com efeito, o que é a simbiose? É uma associação entre dois animais muito diferentes, que vivem juntos em estreita comunhão e (nem sempre) com vantagens recíprocas. As simbioses, dizem-nos os biólogos, distinguem-se, segundo a natureza da associação, como «mutualismo», «comensalismo», «inquilinismo», «parasitismo» e assim por diante. Todos eles são termos muito expressivos e, quer se considerem favoravelmente quer desfavoravelmente as relações anglo-indianas, todos se adaptam muito bem ao domínio inglês na Índia, o qual, de facto, foi mais um processo biológico do que um fenómeno político. Ora, é evidente que nas simbioses, cujas causas permanecem obscuras não obstante as muitas interpretações e hipóteses, há qualquer coisa de anormal, de excêntrico, de absurdo. Porquê, por exemplo, determinados peixinhos minúsculo chamados schedophilus permanecem escondidos sob o chapéu das medusas maiores? Mas então e porquê. durante todo o século XIX e a primeira metade do século XX, homens de pele branca nascidos, criados e educados nos climas nebulosos da Europa nórdica iam viver para os trópicos, no meio de um povo de pele escura que não compreendiam nem amavam, à custa desse povo mas procurando ao mesmo tempo ser-lhe útil de alguma maneira, por forma a justificar e a tornar permanente a sua estada?

sábado, Setembro 18

Encantação pelo riso

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hilare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

Vielimir Khlébnikov. Tradução de Haroldo de Campos.

sexta-feira, Setembro 17

diventa corporale










quinta-feira, Setembro 16

O que os peixes decidiram fazer

Todos os dias, um pescador lançava as redes, plaf, à água. Longas horas no meio do mar, lançando as redes, plaf, plaf, plaf, com gestos de semeador apaixonado. Os peixes, esses, aguardavam alegre e pacientemente a vez de serem pescados, borbulhando intermináveis declarações de amor ao pescador.
O caso é que, por uma sucessão de intermináveis azares e infortúnios, pescador e peixes falhavam sempre os seus encontros. Os peixes corriam como loucos, de olhos esbugalhados, atrás do pescador e este sulcava incansavelmente as ondas no encalço daqueles. Mas parecia que quanto mais insistiam neste assíduo labor, mais excitavam a crueldade dos elementos. E, dia após dia, semana após semana, mês após mês, as redes permaneciam vazias.
Ora, cansados de tanta correria para nada, os peixes decidiram acabar com aquilo. “Chegou o momento de lançarmos as nossas redes”, disseram os peixes que tinham barbatanas vermelhas. “Chegou o momento de recuperarmos o tempo perdido”, disseram os que tinham barbatanas azuis. E assim foi. Os peixes lançaram as suas redes e pescaram sem dificuldade o pescador. Em poucos segundos, o homem evaporou-se da superfície das águas como se evapora uma aparição da Virgem.

Doutor Avalanche
, p. 33.

La cosa mentale









O jogo de luzes e sombras no rosto de Joan Fontaine — caramba, é por isto que gosto tanto de Hitchcock.

Stop Player. Joke No. 4

Selling player pianos to Americans in 1912 was not a difficult task. There was a place for everyone in this brave new world, where the player offered an answer to some of America's most persistent wants: the opportunity to participate in something which asked little understanding; the pleasure of creating without work, practice, or the taking of time; and the manifestation of talent where there was none.
...

da medicina não científica

Foi de passagem, só ouvi esta frase "dói-me uma coisa cá dentro".
Um corpo feito de órgãos estranhos, sem nome nem localização. Não se sabe o que dói.

terça-feira, Setembro 14

and looks hotsy-totsy

Os quatro pontos cardeais são três: o sul e o norte.

Vicente Huidobro, Altazor.

segunda-feira, Setembro 13

The other tape


Ágape, agonia, de William Gaddis, tradução de José Miguel Silva, Edições Ahab, Junho de 2010.


É um livro pequeno; sessenta e nove páginas se excluirmos prefácio e posfácio. Mas ao mesmo tempo é um livro que se estende em numerosas ramificações, cada frase abre uma passagem.
Seguindo os melhores conselhos, decidi que o vou ler a eito como primeiro ensaio (a voz é um instrumento musical), depois volto ao princípio e mudo de ritmo — as vezes que forem necessárias até perder as certezas da literatura. Até não conseguir dizer nada sobre nada.
Nunca tive jeito para fazer colecções até que comecei a coleccionar pedras.

domingo, Setembro 12

Summer songs #9

sábado, Setembro 11

— Há alguns segundos, cinco ou seis de cada vez, em que sentimos de repente a presença da harmonia eterna, inteiramente alcançada. Não é uma coisa terrena; não quero dizer que seja celeste, mas apenas que o homem, na sua forma terrena, não a pode suportar. Precisa de mudar fisicamente ou morrer. É um sentimento claro e irrefutável. Como se de repente sentíssemos toda a natureza e disséssemos: sim, é verdade. Quando Deus criou o mundo, no fim de cada dia de criação dizia: «Sim, isto é verdade, isto é bom.» Isto... não é enternecimento, é apenas alegria. Não perdoamos nada, porque já não há nada a perdoar. Não é que se sinta amor, oh, é qualquer coisa superior ao amor! O mais horrível é que seja tão assustadoramente claro e uma tão grande alegria. Mais de cinco segundos e a alma não suportaria e desapareceria. Nesses cinco segundos vivo uma vida e por eles dou toda a minha vida, porque a valem. Para suportar dez segundos, seria necessário mudar fisicamente. Penso que o homem deve deixar de procriar. Para quê as crianças, para quê o desenvolvimento, se o objectivo está alcançado? No Evangelho diz-se que depois da ressurreição não haverá procriação, serão todos anjos de Deus. É uma insinuação. A sua esposa está a dar à luz?
— Kiríllov, isso acontece-lhe com frequência?
— Uma vez cada três dias, uma vez por semana.
— Não sofre de epilepsia?
— Não.
— Provavelmente, vai sofrer. Tenha cuidado Kiríllov, tenho ouvido dizer que é assim que começa a epilepsia. Um epiléptico descreveu-me em pormenor essa sensação prévia antes do ataque, exactamente como você; também ele falou de cinco segundos e disse que não era possível suportar mais. Lembre-se do jarro de Maomé, que não conseguia esvaziar-se enquanto ele percorria o seu paraíso a cavalo. O jarro é como esses mesmos cinco segundos; faz lembrar essa sua harmonia, e Maomé era epiléptico. Tenha cuidado, Kiríllov, com a epilepsia!
— Não terá tempo — riu-se Kiríllov suavemente.


Os Demónios, de Fiódor Dostoievski, tradução de António Pescada, Relógio d' Água, Março de 2010, págs.527/528

sexta-feira, Setembro 10

Ler nada pode contra a morte. É apenas um ritmo de estarmos vivos, e como a vida sujeito a interrupção definitiva. Acabarei este livro?

Luís Mourão.

quinta-feira, Setembro 9

De que estou eu à espera para iniciar esta história?

Numa certa manhã de um determinado sábado, estando mergulhado em relevantes afazeres de ordem prática, isto é, nas limpezas domésticas semanais, Alexey descobriu na parede do seu quarto uma porta que nunca vira antes. A porta abria-se para uma pequena sala ricamente decorada, em cuja lareira flamejava um fogo alegre e brilhante. Abundavam as pinturas nas paredes e um gato cinzento dormitava sobre um canapé. Pelo soalho, no entanto, rastejava uma mesquinha e nefanda sombra de cotão. Alexey ruminou um vago “hum!”. Depois, sem perder mais tempo, lançou-se ao trabalho, limpando com o mesmo afinco todos os recantos da nova divisão.
No sábado seguinte, ao executar de novo as limpezas semanais, descobriu outra divisão: desta vez, um elegante escritório dominado por uma imponente secretária de mogno e altas estantes, longamente cobertas de livros e um previsível manto de pó. Alexey encolheu os ombros, suspirou e continuou o trabalho. O mesmo se verificou no sábado subsequente e em todos os que se seguiram. A casa crescia, semana após semana, a um ritmo assombroso. Por seu lado, o trabalho aumentava na mesma proporção. Resignado, Alexey armava-se de infinita paciência e prosseguia a limpeza.
Não havia habitação tão bem cuidada e ordenada em lado algum. Andava meio tonto, de um lado para o outro, limpando tudo o melhor que podia. Era um trabalho difícil, torturante, esgotante e completamente ingrato: quando terminava a limpeza da última divisão, descobria de imediato outra que precisava de ser limpa. Sentia-se mortalmente exausto, como se um comboio ou uma vaca lhe tivesse passado por cima.
E os meses, vinte ou mais, foram caindo no buraco insondável do tempo e a casa continuava a crescer: dezenas de quartos, salas de estar, cozinhas, casas de banho, escritórios, suites. Ao fim de alguns anos, Alexey precisava de várias horas para percorrer toda a casa e um tempo incomensurável para a limpar.
Por fim, aquilo começou a maçá-lo. Era mais do que o seu ânimo podia suportar. Cruzou os braços com um ar francamente desgostoso e atirou-se para uma cadeira*. Decidiu que não queria viver ali por mais tempo. Levantou-se e dispôs-se a procurar a porta da saída. Foi assim que pegou numa mala de mão e saiu para o mundo. Andou à sorte, por divisões estranhas e distantes, atravessando imensas e ilimitadas zonas da casa, subindo e descendo escadas, abrindo e fechando centenas de portas. Em resultado disso, o fato de viagem ficou todo esfarrapado e as carnes um tanto dilaceradas. Mas ele tudo suportava, pacientemente.

* Uma esplendorosa cadeira de braços, estilo vitoriano, que decorava um hall recentemente descoberto por trás de uma cozinha nova.


As sessões do Cineclube do Porto regressam ao Passos Manuel. Logo às 22h00 será projectado Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard. Uma viagem para o mar, um estudo sobre o azul e o vermelho, e por aí fora.

quarta-feira, Setembro 8

O princípio da Incerteza



Maria: What's the matter, darling? Is it France?
Sir Frederick: No, no. It's Yugoslavia.
Maria: Oh, I see.

...

Ao longo do filme, Lubitsch vai-nos mostrando Sir Frederick Barker a correr para Genebra, multiplicando-se em acções diplomáticas e telefonemas para tentar evitar a guerra na Europa. Mas é só no final que nos dá a sua verdadeira dimensão política: ele entra pela porta do salon da Grande Duquesa Anna Dmitriëvna em Paris e propõe à mulher, quando ela já não o espera, esquecerem toda a história do Anjo e irem para Viena como estava previsto. As viagens do costume e uma forma airosa de escapar à Jugoslávia.

une phrase à laquelle je crois

J'ai toujours été sensible à cette phrase de Lubitsch, qui a été considéré comme un cinéaste psychologique, qui n'a fait que des drames et des comédies psychologiques, et qui disait: «commencez par filmer des montagnes, quand vous saurez filmer des montagnes, vous saurez filmer des hommes», et c'est une phrase à laquelle je crois. Quand on sait modeler des montagnes, on sait modeler des hommes. Jean-Luc Godard

terça-feira, Setembro 7

Mais logo, às 22h, regressam as Terças Clássicas do Campo Alegre, no Porto, ainda com Marlene Dietrich, em ANGEL (1937), um dos filmes maiores de Ernst Lubitsch. “Visão, ocultação, portas que abrem e fecham, enganos, incertezas”. “Anything wrong? / Nothing wrong at all”.
Medeia Filmes | Facebook
Sonho: as minhas sapatilhas velhas e uma localidade esquecida pelo império russo e pelo mundo foram os únicos pormenores apaziguadores da noite.

Geometria: rectas tangentes e secantes a uma curva.

Bocejo: nada me aborrece mais do que os apelos constantes à criatividade.

Cinema: Portas que abrem e fecham.

segunda-feira, Setembro 6

platero disse...

Claro que as árvores também fazem amor. Qualquer botânico de pacotilha sabe que determinadas espécies têm os dois géneros, e que as fêmeas podem selecionar, e engravidar de frutos com pólen de eleição. Talvez do macho mais robusto, mais composto, com flores mais apelativas.
tb as fêmeas, à semelhança dos insetos, pe, libertarão feromonas capazes de atrair o pólen dos machos a muitos quilómetros de distância. Eu tenho um castanheiro aqui em Arraiolos, consideravelmente longe de soutos ou mesmo de especimes isolados, contudo produz castanhas com uma regularidade cronométrica. Umas vezes mais escuras, quase pretas, outras vezes castanhas - fazendo jus ao nome. Uma cacofonia de cores

o que significa, no mínimo, uma troca de parceiros. Uma infidelidade conjugal, passível de lapidação em qualquer regime islâmico. e há ainda a situação bem conhecida de híbridos, resultantes de relações fora da espécie - sobreiro X azinheira como as mulas são produto de cruzamento égua X burro ou cavalo X burra

é contudo digna de registo a sua intuição para o problema, pelo que me apresso a felicitá-lo aqui da minha quinta em Arraiolos.

e já agora deixe-me confidenciar-lhe que é conhecida e frequente a prática amorosa entre humanos e animais - uma zoo qualquer coisa - não tanto, mas existente também
uma homofitogamia que consiste no estabelecimento de relações amorosas entre pessoas e vegetais - árvores sobretudo.

no meu caso, não posso ocultar uma certa paixão pessoal por uma sedutora macieira Golden que me namora do quintal


Publicada por platero em resposta a este texto.

domingo, Setembro 5

Kirilov, 1967

Depois de Godard, Dostoievski continua a ser Dostoievski.
Mas depois de Bresson, Dostoievski é outra coisa.

sábado, Setembro 4

Là-dessus, Robert évoque les Démons de Dostoïevski. Il me rappelle que l'écrivain, dans les notes relatives à ce roman, prophétise par la bouche du prince Stavroguine: "Je crois que les hommes deviendront peu à peu des anges ou des diables."

Promenades avec Robert Walser, Carl Seelig, Rivages poche/Bibliothèque étrangère

Breve esclarecimento sobre as árvores

É sabido que de todos os seres que habitam o planeta, as árvores são os mais reservados, sensíveis e esquivos. Não existem outros iguais, nem sequer parecidos. Para o provar, basta lembrar o limitadíssimo número de humanos que logrou observar duas árvores a fazer amor. Para além de mim, apenas mais três ou quatro pessoas, incluindo, segundo creio, Mozart*.
Os transportes amorosos das árvores são regidos pelo mais profundo segredo. Têm um faro muito apurado e nem por um só instante se deixam surpreender. Armadas de infinita paciência, esperam durante anos pelo momento certo para gozarem tranquilamente os doces prazeres, em dias de pesado e denso nevoeiro. Por isso, o tema tem sido campo fértil para a imaginação e a fantasia, existindo teorias para todos os gostos, algumas das quais bastante engenhosas e extraordinárias.
Para esgotar duma vez este assunto e desembaraçar-me dele para sempre, vou descrever os factos tal como os testemunhei, deixando aos leitores o encargo de formular o seu próprio juízo. Esta é a verdade: as árvores fazem amor sem moverem uma raiz, um raminho, uma folha sequer. Levantam voo aos pares, caem por terra, levantam voo de novo, giram no ar como longas borboletas, envolvem-se em tocantes e misteriosos bailados, e voltam a pousar sem saírem do sítio, sem um gesto. Frágeis como o orvalho da manhã, breves como um clarão de luz.
E acabou-se. Tudo se resume a isto. Disse até mais do que o necessário. E quem diz o que sabe, faz o que pode e dá o que tem, não é obrigado a mais.

* Algumas peças de Wolfgang Amadeus, em especial o Quarteto de Cordas n.º 22, parecem confirmar a minha convicção de que o compositor também terá visto árvores em cupidinosas relações.

sexta-feira, Setembro 3

(...) Nos filmes de Douglas Sirk, as mulheres pensam. Isso eu jamais notei em trabalhos de outros directores. Nenhum deles. Nos outros as mulheres até reagem, fazem algo, pois as mulheres sempre farem, mas com Sirk não, elas pensam. Isso deve ser observado. É bom ver uma mulher pensar. Dá esperança. Sério.

Rainer Werner Fassbinder, "A Anarquia da Fantasia", Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, p. 16

quinta-feira, Setembro 2

Uma intervista

PERGUNTA:

Quantos anos tem V. Ex.ª?

RESPOSTA:

No próximo mês de Junho completo 19 anos.

PERGUNTA:

Como? Eu ia dizer que o senhor tinha uns 35-36 anos. Onde nasceu?

RESPOSTA:

No Missuri.

PERGUNTA:

Quando começou a escrever?

RESPOSTA:

Em 1836.

PERGUNTA:

Como é isso possível? Se agora tem só 19 anos!

RESPOSTA:

Não sei. Na realidade, não deixa de ser um tanto curioso.

PERGUNTA:

Sim, na realidade, parece-o. Qual foi o homem, no entender de V. Ex.ª, e de todos com quem tem falado, que lhe pareceu mais notável?

RESPOSTA:

Aaron Burr*.

PERGUNTA:

Mas é impossível que se tenha encontrado, alguma vez, com Aaron Burr, se tem só 19 anos.

RESPOSTA:

Bom; se o senhor sabe as coisas da minha vida melhor do que eu, porque mas pergunta?

PERGUNTA:

Foi só uma sugestão, nada mais do que uma sugestão. Em que ocasião conheceu o senhor Burr?

RESPOSTA:

Certo dia, encontrando-me no seu enterro, ele pediu-me que não fizesse tanto barulho, e...

PERGUNTA:

Mas Santo Deus! Se o senhor se encontrava no enterro é porque ele, certamente, estava morto; ora se estava morto, que interesse tinha ele em que fizesse ou não barulho?

RESPOSTA:

Não sei. Nestas coisas, foi sempre um homem especial.

* Terceiro vice-presidente dos Estados Unidos (1756-1836).

Mark Twain, Encontro com um "intervistador". Incluído no volume O Roubo do elefante branco. Tradução de Francisco José Tenreiro.

Gosto e não gosto

Gosto de Klaus Kinski em Fitzcarraldo. Não sei se é por ele teimar em levar o barco pela montanha acima, pelo seu gosto desmedido pela ópera, ou pela forma como se abraça a Claudia Cardinale. O certo é que neste filme ele sorri e talvez seja isso que apazia os deuses. Quanto a Woyzeck, o caso é ao contrário; é que nem Klaus Kinski consegue, nem tão pouco Bruno Schleinstein conseguiria, fazer de Woyzeck. Era preciso um homem forte e vulgar, sem esgares nem tiques físicos. Woyzeck não é louco, é apenas um tipo que perde uma coisa e depois encontra-a, mas do avesso. A perplexidade afecta-lhe as ideias e o discurso, não o corpo, ainda não — calado, ele é um tronco de árvore.

quarta-feira, Setembro 1


Estrada da Pena, Serra de Sintra. Ar e árvores fotografados pela Ana.
Por aqui também se prepara a rentrée: figos do Douro; queijo de cabra, de Moura; umas ervas; vinho de Pias...